Em instrumentos temperados (aqueles que possuem divisão entre uma nota e outra em intervalos de semitons – que no caso do violão, guitarras, contrabaixos é feita pelos trastes) a escala tem a função de sustentar os trastes. Que por sua vez configuram – atravez de um espaçamento específico entre eles e dentro de uma determinada distância entre o nut e a ponte – a localização das notas a serem tocadas.
As escalas de madeira necessitam de manutenção quando apresentam irregularidades em sua estrutura (torção, empenamento, desgaste) para garantir um melhor desempenho do instrumento e sua preservação.
Os trastes frequentemente apresentam problemas para o músico. Sofrem desgastes, soltam da escala, geram trastejamento. Também necessitam de uma manutenção periódica que garanta um resultado sonoro satisfatório.
Veja como é feita a retífica de uma escala e a troca e nivelamento dos trastes de um braço de contrabaixo:
Retirada do nut (peça importante para altura e orientação das cordas até as tarraxas na região do headstock).
Com o braço preso na bancada pelo headstock, o formão e o martelo de acrílico, batidas leves desgrudam a peça da cavidade sem comprometer sua estrutura. O nut descola da cavidade com a pressão e é possível retirá-lo com um alicate caso não desgrude facilmente.
Neste caso eu quebrei a peça, confesso!
Eu nem ia divulgar este fato. Não queria que vocês soubessem mas as vezes eu erro… Só não espalhem, por favor!
Para retirar os trastes com o formão e o martelo é importante posicionar a lâmina no vão entre o próprio trastes e a escala pela lateral. Assim como na foto. Com este procedimento o traste levanta levemente nos cantos.
E assim é possível, com um alicate turquesa, soltá-lo gradualmente até que se desprenda da escala.
Como o traste possui travas, no momento de soltá-lo da escala pode acontecer de lascar a madeira. Neste caso é só sujeira mesmo.
Imagem do apocalipse. Trastes podres e escala totalmente riscada. Mas isso vai mudar!
Ajustando o tensor para que ele tenha ação depois do nivelamento. Caso a madeira esteja muito prejudicada e houver a necessidade de acionar totalmente o tensor para compensar um empenamento, por exemplo, o diagnóstico não é nivelamento da escala. Neste caso a troca da escala ou até mesmo do braço pode ser o melhor caminho apesar de não ser o mais fácil.
Com um toco de madeira (reto de preferência, afinal estamos falando de nivelmento e não o contrário), uma lixa 80 e pressão moderada damos início a retífica da escala.
Toda escala possui um raio de curvatura, por isso, acompanhar o desenho do raio durante a lixagem da madeira mantém a escala no mesmo padrão inicial.
Utilizar um bloco com o mesmo raio da escala é uma outra opção.
Com uma régua de metal, confere-se toda extensão da escala. Para saber se o nivelmanto está bom, meça a escala em três partes: as duas laterais e o meio.
Uma dica: dependendo do calibre das cordas a serem utilizadas, deixe uma leve curvatura negativa com a afinação das cordas o braço ficará reto.
Com o nivelamento da escala, há a diminuição de massa de madeira, portanto as cavidades dos trastes podem ficar mais rasas.
Para fazer esta verificação, utilizei uma lâmina de estilete para medir a profundidade da haste do traste.
Lâmina com a delimitação da haste marcada com uma lapiseira.
Se a linha desenhada na lâmina não passar por dentro da cavidade, significa que precisa aumentar sua profundidade para abrigar toda extensão da haste do traste.
Com um serrote específico (0,06mm de expessura), aumenta-se a profundidade das cavidades até que a marca feita na lâmina não apareça na verificação.
Como comprei o rolo de trastes tive que fazer o corte individual para cada casa.
Lembrando que é possível comprar o jogo de trastes já cortados. O único problema é que estes geralmente não vêm curvados, acompanhando o raio da escala. Neste caso seria necessário curvá-los manualmente.
Suporte marcando os trastes de cada casa…afinal cada traste tem um comprimento de acordo com cada casa.
O importante é se organizar e fazer seu trabalho render!
Com um “tapetinho” para preservar o braço das marteladas contra a mesa, a instalação dos trastes começa com o martelo assentando o mesmo nas cavidades.
Todos os trastes devem estar com a cabeça encostada totalmente na escala. Sem vãos.
Retirada das rebarbas com alicate turquesa. Tomando cuidado para não cortar um pedaço da lateral da escala junto.
Gotas de bonder nos vãos das cavidades dos trastes, pela lateral da escala.
A cola penetra e segura o traste.
Nivelamento lateral dos trastes: como podem perceber sempre tem um dispositivo facilitador nas horas mais difíceis. Neste caso é uma lima colada em um pedaço de madeira.
A lima deve manter-se perpendicular a escala e retirar todo excesso de trastes pela lateral em ambos os lados.
Angulação da lateral dos trastes para acabamento.
A lima deve manter-se angulada por igual durante sua passagem em toda extensão da peça.
Dica: não acentuar demais o angulo.
Acabamento com lixas 220 e 400 respectivamente.
Agora sim começa o nivelamento dos trastes.
Primeiro isola-se a escala com fita crepe. Ou não…vai da consciência de cada um!
Conferindo com a regua a altura dos trastes. Uns mais altos, outros mais baixos. Normal depois de algumas marteladas…umas mais fortes, outras mais fracas.
Mesma idéia do nivelamento da escala, começando o nivelamento dos trastes com um taco reto (sem comentários) e uma lixa 120.
O taco com lixa deve seguir o trajeto: lateral, meio, lateral – para cobrir toda extensão dos trastes.
Novamente a régua de metal como parâmetro do nivelamento.
Os trastes devem encostar na régua em todos os pontos: lateral, meio, lateral.
Quando isso acontecer, inicia-se o acabamento com lixa 220 e 400 respectivamente seguinto o mesmo trajeto do taco no nivelamento.
Trastes nivelados e com acabamento.

A próxima etapa é o arredondamento das laterais dos trastes.
Existem diversos métodos para realizar este trabalho, mas optei pela micro retífica com um disco de borracha. Apenas para quebrar a quina dos trastes.
Resultado do arredondamento com a micro retífica.
Polimento com lixas 400 e 1200.
Posteriormente, uma palha de aço para dar mais brilho.
Cera de carnaúba para finalizar o polimento.
Agora sim a última etapa de finalização na politriz.
Resultado do trabalho de nivelamento de escala e trastes.
Com a montagem do instrumento é necessário verificar novamente o tensor devido a tensão das cordas e se ocorre trastejamento em determinada região. Leia também a matéria sobre trastejamento!








Francisco
28 de setembro de 2012
OLa Paula! Ótima matéria! Parabéns pelo trabalho!
Uma dúvida: quando voce nivelou a escala antes de colocar os trastes, esse nivelamento não deveria ser feito obrigatoriamente utilizando um bloco com o mesmo raio da escala? Esse mesmo bloco não deveria ser utilizado também para nivelar os trastes após a sua colocação? Muito obrigado pela atenção e abraços!
Pauleira
outubro 4th, 2012
Oi Francisco tudo bem? Não ouve necessidade de refazer o raio da escala, logo nao precisei do bloco…com um taco reto e lixando por igual eu consgo manter o mesmo raio.
Quanto ao nivelamento dos trastes, eu prefiro fazer também com um taco reto assim eu controlo onde quero ou precisa ser gasto mais ou menos….
Abs
Rogerio
7 de outubro de 2012
Parabéns Paula pelas dicas ! muito bom ! gostei do seu trabalho !
Leonardo
20 de outubro de 2012
Olá Paula, admiro muito seu trabalho!!
Esses dias fui me aventurar a trocar os trastes de minha guitarra antiga, pois estavam muito desgastados e baixos. Tentei tomar o max de cuidado usando um ferro de solda para esquentar os trastes para sairem com mais facilidade, porem mesmo assim, na hora da retirada sairam pequenas lascas da madeira…
O que posso fazer para amenizar a situação? Obs: a escala esta levemente escalopada.
Pauleira
outubro 22nd, 2012
Oi Leonardo!
Geralmente nesses casos dá para fazer enxertos com cola e pó da mesma madeira da escala.
Abs
Marco
23 de outubro de 2012
Nossa, virei teu fã!!!! Excelente!!! Já fiz uma troca de trastes na minha Fender strat e agora estou lendo o teu tópico para blindagem…se tu morasse aqui no sul, eu ia fazer umas aulas contigo. Parabéns!!!
Isaias
2 de novembro de 2012
Ola Pauleira, sempre visito o seu site e gosto muito das excelentes dicas, sou luthier alguns anos , mas a minha grande dificuldade é encontrar lojas de vendas de ferramentas, especialmente serra faca, vc conhece algum site confiável? Poderia me dar uma dica ? desde já muito obrigado e parabens pelo seu trabalho.
Pauleira
novembro 3rd, 2012
Oi Isaias, obrigada!
Bom, ferramentas específicas aqui no Brasil não é muito comum.
Quem está desenvolvendo ferramentas para luthieria aqui é a Music Tools.
Lá fora tem a Stewart McDonald.
Abs
marcelo
12 de novembro de 2012
olá paula
eu estou pensando em me aventurar também nesse ramo, mais só nas minhas guitarras .
tem uma ferramenta apropriada para arredondar os trastes eu não consigo achar e não sei o nome, ela parece uma lima e na lateral da mesma tem essa curvatura q facilita o processo. você poderia me falar o nome dessa ferramentas ?? desde já agradeço DEUS te abensoe você trabalha muito beemmmmm.
Pauleira
novembro 12th, 2012
Oi Marcelo, é uma lima de arredondar trastes.
Você encontra aqui no Brasil na Music Tools.
Abs e muito obrigada!
Caio Pereira
26 de novembro de 2012
Boa tarde Paulo,
Toco guitarra à alguns anos, e uma das minhas guitarras, está com este problema com os trates desgastados! É a primeira vez que vou fazer esse trabalho, e confesso que estou com um pouco de medo! Você teria alguma dica a mais para alguém que nunca fez esse serviço?
Pauleira
novembro 28th, 2012
Caio, se vai se aventurar nisso sem conhecimento, tome cuidado…tudo bem que a guitarra é sua, mas o cuidado é para prevenir que isso venha se tornar um prejuízo futuro caso tenha que mandar refazer o serviço.
Esse tutorial, é mais curiosidade de mostrar como faço ou fazia alguns trabalhos e não falar “é dessa forma que todos devem fazer em casa”.
Abel Dias
6 de dezembro de 2012
Ótimo trabalho! muito bom o resultado!
Mas e no caso de escala clara, se faz necessária a aplicação de verniz, no meu caso, estou retirando os trastes e vou deixar fretless, numa escala clara, tem algum tipo de verniz mais especifico ou posso fazer uso de qualquer verniz de madeira? E o encordoamento pode continuar sendo o mesmo? Abraço.
Pauleira
dezembro 7th, 2012
Nem toda troca de trastes em escala clara tem essa necessidade. No caso dedeixar fretless sim.
Marcio Fernandes
28 de dezembro de 2012
Paula, gosto muito da sua sabedoria, tudo simples e detalhado, bom de mais, agora vou dar um jeito na minha escala, um beijao no coração daqui de Blumenau Sta Catarina. Fica com Deus.
Pauleira
janeiro 2nd, 2013
Muito obrigada MArcio! Um abraço!
MARCIO FERNANDES
2 de janeiro de 2013
ganhei uma guitarra presente e está trastejando no 15º traste pois o anterior esta mais baixo que os demais e somente na 3ª e 4ª corda será que tem como puxar o traste com uma turquesa pequena somente no meio dele, ou devo troca-lo, da pra trocar somente um traste? Desde já obrigado e parabens pelo trabalho.
Pauleira
janeiro 2nd, 2013
Oi MArcio, não tenho como te falar o que deve ser feito sem ver o instrumento. A principio, se vc não for luthier acho legal levar em um as vezes a regulagem resolve.
Aimone Pugliese
6 de janeiro de 2013
Olá Paula, saudações! Mais uma vez aqui, parabenizando-lhe pelo trabalho espetacular e tirando dúvidas (rs…). Você aconselha sempre a troca de todos os trastes ou há possibilidade de trocar somente os desgastados (caso somente até o 5º traste esteja com desgaste). Mais uma vez, obrigado e parabéns!
Pauleira
janeiro 18th, 2013
Oi Aimone, obrigada por estar sempre acompanhado meu trabalho em todas as redes sociais rsrsrs!!!
Olha, se alguns trastes estão extremamente desgastados e os outros não, ou pelo menos muito diferentes, o que acontece? rsrsrsrs
GEralmente é avaliada uma possível retífica, caso contrario eu trocaria todos!
junior
9 de janeiro de 2013
Olá Paula, comprei um epiphone chet atkin maciço usado, ele estava com as cordas velhas e muito baixa pra pegada leve, coloquei cordas novas e está trastejando a corda si em alguns lugares posso fazer o mesmo processo que voce fez apartir da foto que está o braço todo com fita crepe e só os trastes aparecendo? já mexi no tirante e o braço ta reto. abraço
Pauleira
janeiro 11th, 2013
Junior, não posso te dizer o que fazer sem avaliar o instrumento, seria muita responsabilidade! =D
Eduardo
16 de janeiro de 2013
muito bem esplicado eu mesmo vou fazer isso em uma das minha guita e tava pesquisando um pouco ate que te achei , muito bom
tira uma duvida no meio dos traste vc tbm coloca a cola ou é só mesmo nas pontas e sae as suas guitas que vc fez ja deu provblema de sairem essas coisas a , um abç vlw
Pauleira
janeiro 18th, 2013
Oi Eduardo, colo apenas as extremidades dos trastes…até agora não deram problema!
Matheus
17 de janeiro de 2013
as lixas utilizadas são lixas d’agua?
Pauleira
janeiro 18th, 2013
Também!
Reinaldo
24 de janeiro de 2013
Olá, como vai? parabéns pelo trabalho e obrigado por compartilhar conosco teu conhecimento sobre o assunto que muito nos interessa, amantes da música e dos instrumentos. Tenho umas guitarras com escala em ébano, uma (Jackson) a escala está brilhante, bem lisa, parece que há um verniz mas não sei lhe dizer ao certo, visualmente é muito bonita, os trastes se destacam, a outra guitarra, a escala parece que está seca, tom fosco e a corda levemente raspa, não é como numa escala em jacarandá, por ex., a corda fica macia na madeira, a escala não é áspera, é coisa mínima mas percebo na parte mecânica, do contato com a corda, principalmente nos “bends”, no som, não há o que reclamar mas é a sensação estranha. Será que se pode antes lixar com uma lixa bem fina, seria um polimento e depois aplicar alguma cera (de abelha…) ? existe um verniz p escala de ébano? desde já, muito obrigado pela atenção!
Roberto Carlos
1 de maio de 2013
Olá, Paula.
Eu sou Saxofonista e Clarinetista. Recentemente comprei um Violão Tagima para tocar em casamentos em minha cidade e região, porém, memso novo, ele está trastejando em várias cordas. Voltei à loja onde comprei o instrumento, informei ao vendedor e ele me dixou testar mais 5 VIOLÕES TAGIMA. Conclusão! Todos os violões Tagima que eu testei estavam trastejando. Como isso é um absurdo? Será que não passou pelo setor de qualidade da empresa?
Eu pensava que a marca Tagima fosse boa, entretando, percebo que não é bem assim como pensava, pois os trastes da 1ª casa até a 7ª casa estão desnivelados e a patir da 8ª casa permanecem nivelados.
Portanto, com essa excelente matéria que você postou em seu blog, irei ajustar os trastes, que embora desajustados, as extremidades dos trastes estão altas e sem acabamento, situação propícia para ferir minhas mãos.
Gostaria de saber como regular o tensor do braço do violão. Você tem alguma tutorial a respeito?
Parabéns por esse tutorial.
Um abraço e muito sucesso!
Att.
Roberto Carlos.
Pauleira
maio 14th, 2013
Oi Roberto, não sei te dizer sobre isso. Provavelmente seja o caso de regular os tensores antes de diagnosticar um nivelamento.
O ajuste do tensor, a primeira regra é usar a chave certa para nao espanar a bala. Depois apertar ou soltar conforme a condiçao do braço, ação de cordas, e demais ajustes.
Daniel
5 de maio de 2013
Oi Paula! é sempre nescessário tirar o braço? e se eu achar nessessá substituir o braço é possivel? e onde se encontra um (strato)
Pauleira
maio 14th, 2013
Braço parafusado é versatil justamente por poder tirar o braço para qualquer tipo de trabalho.
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